Ouvi seu nome um dia desses.
Fazia muito, muito tempo. Estava em uma mesa de um bar qualquer, tendo conversas banais com pessoas banais, citaram seu nome e algo sobre um casamento entre fofocas e nulidades. Eles não sabiam de nós ou se esqueceram, pois assim como todo o resto,nós também passamos, principalmente para os outros.
Aquela conversa entrecortada por piadinhas e cacarejos foi aos poucos perdendo seu sentido, se transformando em ruídos e sons disformes, conforme eu me lembrava de Juiz de Fora e de nossa vida juntos.
Lembrava-me especialmente de uma noite em que fomos ao Berthos, você de vermelho e eu de preto, dois “pombinhos” apaixonados e selvagens. Penso que ofendíamos as pessoas com o desespero de nossa paixão, e nossa insistência em tornar explícita toda nossa lascividade. Todos nos olhavam meio de lado e algo desconfiados, como se fossemos pecadores imperdoáveis por sermos tão felizes com tão pouco, por rirmos da vida e sua falta de sentido.
Lembro-me dos sons de nossas botas sobre os paralelepípedos úmidos pelo sereno, e por nos deixarmos molhar sem pressa. No Marraquesh, martinis e alguma boa música enquanto eu me perdia sonhando acordado no fundo de seus olhos.
As noites perfumadas e intermináveis e as maiores trepadas da história humana, que quase derrubavam teu prédio e que nos custaram três camas; Se fossemos delatados pelos seus vizinhos acho que seríamos presos, pois com certeza aquele tesão todo era ilegal, passível de prisão perpétua sem direito a fiança.
Acordar naquela luz amarela do seu quarto, no final da manhã e ficar enrolando na cama até a tarde era algo ligado ao paraíso e suas bênçãos, pois nós dois juntos éramos a perfeição, consagrávamos a salvação da humanidade e jurávamos ali nos amar para todo o resto de nossas vidas e além. E no fim sei que realizamos uma façanha, nos amando até o final do nosso amor, que acabou como todo o resto, que também acabará.
E seu nome voltou a ser citado por aquelas pessoas, fazendo com que toda a realidade voltasse ao seu ritmo novamente, barulhenta e irritante. Monótona e previsível.
Mais nomes, mais risadas e bebidas, pra ajudar a empurrar aquela gente pra dentro.
E eu continuei ali, entre aquelas pessoas banais e seus assuntos banais, tentando ser apenas mais um.
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domingo, maio 23, 2004
quarta-feira, maio 12, 2004
Todas as manhãs do mundo.
Tudo começa com os olhos de Maria.
São castanhos e grandes e arredondados, ela está maquiada e seus olhos estão com o lápis borrado, todo o resto é algo oitentista, com brilho e lábios molhados e rosados. Sempre fitando o horizonte posso agora ver seu rosto, magro e bronzeado, ela é bonita, porém tem um rosto comum, parece mais com uma menina que estudou com você do que com uma top model anoréxica. Seus cabelos são castanhos claros e na altura do ombro, o vento que começa a soprar os atrapalha e eles caem sobre o rosto, uma pequena franja caindo sobre seus olhos cansados.
Ela está sentada sobre um terraço, tem uma cidade metropolitana a seus pés que começa a fazer seus sons matutinos, sua roupa também se move com o vento, mais forte agora, e ela usa uma bata branca curtinha aberta nas laterais, e conforme o vento sopra vejo suas costelas com parte de uma borboleta tatuada ou algo dos seios conforme sua bata se agita. Uma saia preta deixa suas pernas a mostra, e elas são intermináveis e esguias.
Uma música toca ensurdecedora, guitarras distorcidas e melódicas criando uma atmosfera de tristeza e raiva, é My Bloody Valentine em Loveless, meu disco preferido de todos os tempos.
O céu é púrpuro e as estrelas se parecem com pequenas pedras de estrasse, o Sol nascerá daqui a momentos e a música se torna mais distorcida e angustiada. E toda a atenção é sobre os olhos de Maria
Todas as alegrias e infortúnios humanos estão ali dentro, sua tristeza é a dos que choram escondidos no banho, daqueles de nós que se colocam preteridos na vida, é a solidão inerente a cada ser humano que vive e se sente vivendo. Seus ombros estão tensos e sua respiração arqueja com milhões de respirações e suspiros de despedidas e saudades.
Alguém lá embaixo presente sua presença, e na visão de sua silhueta sente o desamparo de sua posição e se preocupa com uma possível queda, mas ela não cairá hoje.
Quando o primeiro raio de Sol toca seu rosto, seus olhos se fecham súbitos e uma lágrima corre, com um rastro escuro e borrado, a música agora somente apita notas suaves e altas sobre o som estrondoso de vento. E Maria continua com os olhos fechados, com o rosto sendo aquecido pela luz amarela solar. Cada estrela se apaga no céu, cada uma a seu tempo, e o púrpura vai dando lugar a suaves tons azulados e rosados no horizonte.
Eu permaneço em meu lugar, contemplando o mistério dessa mulher que é minha vida e meu amor, seus ombros se relaxam e seus olhos se abrem, agora me procurando até que encontram e sei que tudo continuará existindo, por mais um dia.
Tudo termina com os olhos de Maria, e eles me sorriem agora.
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São castanhos e grandes e arredondados, ela está maquiada e seus olhos estão com o lápis borrado, todo o resto é algo oitentista, com brilho e lábios molhados e rosados. Sempre fitando o horizonte posso agora ver seu rosto, magro e bronzeado, ela é bonita, porém tem um rosto comum, parece mais com uma menina que estudou com você do que com uma top model anoréxica. Seus cabelos são castanhos claros e na altura do ombro, o vento que começa a soprar os atrapalha e eles caem sobre o rosto, uma pequena franja caindo sobre seus olhos cansados.
Ela está sentada sobre um terraço, tem uma cidade metropolitana a seus pés que começa a fazer seus sons matutinos, sua roupa também se move com o vento, mais forte agora, e ela usa uma bata branca curtinha aberta nas laterais, e conforme o vento sopra vejo suas costelas com parte de uma borboleta tatuada ou algo dos seios conforme sua bata se agita. Uma saia preta deixa suas pernas a mostra, e elas são intermináveis e esguias.
Uma música toca ensurdecedora, guitarras distorcidas e melódicas criando uma atmosfera de tristeza e raiva, é My Bloody Valentine em Loveless, meu disco preferido de todos os tempos.
O céu é púrpuro e as estrelas se parecem com pequenas pedras de estrasse, o Sol nascerá daqui a momentos e a música se torna mais distorcida e angustiada. E toda a atenção é sobre os olhos de Maria
Todas as alegrias e infortúnios humanos estão ali dentro, sua tristeza é a dos que choram escondidos no banho, daqueles de nós que se colocam preteridos na vida, é a solidão inerente a cada ser humano que vive e se sente vivendo. Seus ombros estão tensos e sua respiração arqueja com milhões de respirações e suspiros de despedidas e saudades.
Alguém lá embaixo presente sua presença, e na visão de sua silhueta sente o desamparo de sua posição e se preocupa com uma possível queda, mas ela não cairá hoje.
Quando o primeiro raio de Sol toca seu rosto, seus olhos se fecham súbitos e uma lágrima corre, com um rastro escuro e borrado, a música agora somente apita notas suaves e altas sobre o som estrondoso de vento. E Maria continua com os olhos fechados, com o rosto sendo aquecido pela luz amarela solar. Cada estrela se apaga no céu, cada uma a seu tempo, e o púrpura vai dando lugar a suaves tons azulados e rosados no horizonte.
Eu permaneço em meu lugar, contemplando o mistério dessa mulher que é minha vida e meu amor, seus ombros se relaxam e seus olhos se abrem, agora me procurando até que encontram e sei que tudo continuará existindo, por mais um dia.
Tudo termina com os olhos de Maria, e eles me sorriem agora.
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domingo, maio 02, 2004
Minha primeira perda.
Quando eu tinha uns quatro anos, meus pais resolveram adotar uma criança. Meu pai, hippie kardecista, se comoveu com umas crianças órfãs e convenceu minha mãe a adotar uma.
A escolhida foi uma menina chamada Sueli, era um ano mais velha do que eu, magrinha e meio invocada, mas a coisa que eu mais me lembro foi que na primeira vez que ela foi pra minha casa tinha as mãos cheias de feridas, muito mal tratada e órfã de pais vivos, que a haviam abandonado na Fundação. Tive um pouco de nojo, mas aquela fragilidade me conquistou.
Por três meses eu tive uma irmã mais velha, e como éramos crianças acho que brigávamos e tudo, mas tenho recordações boas, embora sejam poucas. Me lembro de andarmos juntos no banco de trás do Opala do meu pai, verde e colossal, e dela me mostrar que sua mão estava boa, somente com casquinhas. Não tive ciúmes típicos da infância, meus pais me contaram que ela precisava de nós, e que nós seríamos a família dela. Tive orgulho deles, e pena daquela menina, que seria minha irmã.
Quando tudo estava pronto para a adoção, os pais dela surgiram do nada e resolveram que a queriam de volta, assim após largá-la naquele “depósito” que rejeitados e crinaças indesejadas. A quiseram de volta simplesmente por vaidade e um orgulho doente, já que afirmaram que ela tinha pais e não seria adotada por uns burgueses quaisquer. Burgueses?!
Ela foi levada pelos pais e nunca mais a vimos, lembro de minha mãe chorando no carro, e meu pai quieto e olhando para frente. Eu estava agora sozinho no banco traseiro e também chorei, mas foi porque minha mãe estava chorando, não entendia aquela coisa adulta de poder e posse.
Queria saber o que foi daquela menina, logo após isso minha mãe engravidou e ganhei uma irmã e depois de cinco anos, mais uma (Carolina e Camila, meus amores). Mas nunca deixei de me perguntar de como seria ter uma irmã mais velha.
Seríamos amigos, estudaríamos na mesma sala, teríamos viajado juntos, e hoje talvez eu já fosse tio. Com certeza hoje eu teria pelo menos mais uma pessoa para amar.
Talvez eu continue amando aquela menina até hoje, magrinha e perebenta, enquanto rezo a deus para que a vida tenha tido ao menos metade do cuidado que meus pais tiveram com ela, naqueles três meses em que tive uma irmã mais velha.
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A escolhida foi uma menina chamada Sueli, era um ano mais velha do que eu, magrinha e meio invocada, mas a coisa que eu mais me lembro foi que na primeira vez que ela foi pra minha casa tinha as mãos cheias de feridas, muito mal tratada e órfã de pais vivos, que a haviam abandonado na Fundação. Tive um pouco de nojo, mas aquela fragilidade me conquistou.
Por três meses eu tive uma irmã mais velha, e como éramos crianças acho que brigávamos e tudo, mas tenho recordações boas, embora sejam poucas. Me lembro de andarmos juntos no banco de trás do Opala do meu pai, verde e colossal, e dela me mostrar que sua mão estava boa, somente com casquinhas. Não tive ciúmes típicos da infância, meus pais me contaram que ela precisava de nós, e que nós seríamos a família dela. Tive orgulho deles, e pena daquela menina, que seria minha irmã.
Quando tudo estava pronto para a adoção, os pais dela surgiram do nada e resolveram que a queriam de volta, assim após largá-la naquele “depósito” que rejeitados e crinaças indesejadas. A quiseram de volta simplesmente por vaidade e um orgulho doente, já que afirmaram que ela tinha pais e não seria adotada por uns burgueses quaisquer. Burgueses?!
Ela foi levada pelos pais e nunca mais a vimos, lembro de minha mãe chorando no carro, e meu pai quieto e olhando para frente. Eu estava agora sozinho no banco traseiro e também chorei, mas foi porque minha mãe estava chorando, não entendia aquela coisa adulta de poder e posse.
Queria saber o que foi daquela menina, logo após isso minha mãe engravidou e ganhei uma irmã e depois de cinco anos, mais uma (Carolina e Camila, meus amores). Mas nunca deixei de me perguntar de como seria ter uma irmã mais velha.
Seríamos amigos, estudaríamos na mesma sala, teríamos viajado juntos, e hoje talvez eu já fosse tio. Com certeza hoje eu teria pelo menos mais uma pessoa para amar.
Talvez eu continue amando aquela menina até hoje, magrinha e perebenta, enquanto rezo a deus para que a vida tenha tido ao menos metade do cuidado que meus pais tiveram com ela, naqueles três meses em que tive uma irmã mais velha.
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sexta-feira, abril 23, 2004
Minhas cinco maiores decepções:
1. Quando soube que fui traído.
2. Quando meu pai se tornou um ser humano comum.
3. Quando fiz minha mãe chorar.
4. Quando descobri que meus "amigos" eram todos interesseiros.
5. Quando soube que fui traído de novo.(isso não tem a menor graça)
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2. Quando meu pai se tornou um ser humano comum.
3. Quando fiz minha mãe chorar.
4. Quando descobri que meus "amigos" eram todos interesseiros.
5. Quando soube que fui traído de novo.(isso não tem a menor graça)
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sábado, abril 17, 2004
A idade da loba.
Beatriz fazia quarenta anos naquela noite.
O céu estava lindo, com suas estrelas brilhantes, perdidas naquele azul profundo e negro, não havia Lua e o mar, muito próximo e calmo, era um espelho refletindo o infinito.
Seu marido já dormia, assim como seu casal de filhos, e ela tinha agora um tempo para pensar e fumar seus cigarros sem que ninguém reclamasse do cheiro enjoativo de canela e chocolate. Era um prazer infantil fumar, seu único vício agora que estava longe da bebida, o pequeno bastão em chamas e aquela linda fumaça serpenteando e se dissolvendo no espaço, azulada e perfumada, lhe fazia companhia e alegrava seu espírito.
Passou uma boa noite e esteve realmente feliz, mas o telefonema de seu irmão mais novo a colocara neste estado nostálgico e melancólico. Já havia dez anos que ela não o via, ele fazia parte da trupe do “Cirque du Soleil” e vivia viajando o mundo, era algum tipo de cigano e artista já que não possuía nem casa e nem carro e nem nada, é verdade que não tinha nem carteira de motorista e seu português adquirira um sotaque estranho, sem pátria, assim como seu francês e seu inglês. Tinha um pouco de inveja dele, mas não herdara seu sangue cigano e seu espírito sem destino, pois tinham pais diferentes e seu lado da família era formado por professores e bancários, todos infelizes e satisfeitos.
Era sempre bom poder falar com ele, mas a saudade sempre trazia algo de amargo, era bom ouvir sua voz, mas era ruim voltar a sentir a distância que os separava, já há anos.
Beatriz sempre preferiu as pessoas à distância, desde muito jovem aprendeu a ficar calada e se manter longe da rudeza humana. Os livros e o estudo sistemático sempre foram seus refúgios contra as pessoas, por isso escolheu uma carreira que a mantivesse longe de todos, mas não deu certo, pois embora fosse boa, muito boa mesmo, o que lhe dava prazer era escrever, e acabou por ficar famosa e também ganhar dinheiro, com a publicação de sua série de romances sobre as peças de um tabuleiro de xadrez e agora com adaptações dos poemas de Baudelaire para crianças. Por mais que negasse e se escondesse tinha talento, e também isso era doce e amargo. Diziam que ela era mal educada e arrogante, mas ela sabia o mostro que estava mantendo longe de sua casa.
Também pensava em sua mãe, imutável e perdida, seu pai, o homem mais calmo e minucioso do mundo (devia ter sido relojoeiro) e em todos aqueles que a fizeram fraca e submissa. Estavam todos errados, o mundo estava todo errado.
As únicas coisas certas eram a vida, o mar, sempre batendo em frente de sua casa e os sons que faziam aquelas pessoas que dormiam as suas costas, aqueles que ela amava e seus sonhos impossíveis.
Quarenta anos era uma boa idade para estar viva e ser feliz, e o destino que se fodesse.
Mais um cigarro e iria dormir.
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O céu estava lindo, com suas estrelas brilhantes, perdidas naquele azul profundo e negro, não havia Lua e o mar, muito próximo e calmo, era um espelho refletindo o infinito.
Seu marido já dormia, assim como seu casal de filhos, e ela tinha agora um tempo para pensar e fumar seus cigarros sem que ninguém reclamasse do cheiro enjoativo de canela e chocolate. Era um prazer infantil fumar, seu único vício agora que estava longe da bebida, o pequeno bastão em chamas e aquela linda fumaça serpenteando e se dissolvendo no espaço, azulada e perfumada, lhe fazia companhia e alegrava seu espírito.
Passou uma boa noite e esteve realmente feliz, mas o telefonema de seu irmão mais novo a colocara neste estado nostálgico e melancólico. Já havia dez anos que ela não o via, ele fazia parte da trupe do “Cirque du Soleil” e vivia viajando o mundo, era algum tipo de cigano e artista já que não possuía nem casa e nem carro e nem nada, é verdade que não tinha nem carteira de motorista e seu português adquirira um sotaque estranho, sem pátria, assim como seu francês e seu inglês. Tinha um pouco de inveja dele, mas não herdara seu sangue cigano e seu espírito sem destino, pois tinham pais diferentes e seu lado da família era formado por professores e bancários, todos infelizes e satisfeitos.
Era sempre bom poder falar com ele, mas a saudade sempre trazia algo de amargo, era bom ouvir sua voz, mas era ruim voltar a sentir a distância que os separava, já há anos.
Beatriz sempre preferiu as pessoas à distância, desde muito jovem aprendeu a ficar calada e se manter longe da rudeza humana. Os livros e o estudo sistemático sempre foram seus refúgios contra as pessoas, por isso escolheu uma carreira que a mantivesse longe de todos, mas não deu certo, pois embora fosse boa, muito boa mesmo, o que lhe dava prazer era escrever, e acabou por ficar famosa e também ganhar dinheiro, com a publicação de sua série de romances sobre as peças de um tabuleiro de xadrez e agora com adaptações dos poemas de Baudelaire para crianças. Por mais que negasse e se escondesse tinha talento, e também isso era doce e amargo. Diziam que ela era mal educada e arrogante, mas ela sabia o mostro que estava mantendo longe de sua casa.
Também pensava em sua mãe, imutável e perdida, seu pai, o homem mais calmo e minucioso do mundo (devia ter sido relojoeiro) e em todos aqueles que a fizeram fraca e submissa. Estavam todos errados, o mundo estava todo errado.
As únicas coisas certas eram a vida, o mar, sempre batendo em frente de sua casa e os sons que faziam aquelas pessoas que dormiam as suas costas, aqueles que ela amava e seus sonhos impossíveis.
Quarenta anos era uma boa idade para estar viva e ser feliz, e o destino que se fodesse.
Mais um cigarro e iria dormir.
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sexta-feira, abril 09, 2004
Eu odeio Setembro.
Eu fiquei parado ali na chuva vendo-a partir, ela andando sobre seus saltos com seu andar pesado e duro e eu com aquele sorriso idiota paralisado em meu rosto, sob a chuva fina naquela noite de Setembro, meus dentes batendo, meu corpo tremendo e meu coração mudo. Abandonado novamente.
Acho que foi a quarta vez ou talvez a quinta, mas foi a última, definitivamente. Pois nada pior que ouvir pela quarta ou quinta vez que você não é querido, um “deja vù” muito ruim, algo como um pesadelo em “looping” na sua cabeça.
É interessante como sentimos que o que é bom, quando termina é para sempre, mas o que é ruim tem uma infinita possibilidade de piorar e de se repetir, para sempre. Pois se parece ridículo ser largado pela quarta ou quinta vez, pela mesma mulher, imaginem ela te ligando pela sexta vez dizendo que te ama...Tua boca suturada, o maxilar doendo e a mulher pedindo perdão, é acordar dentro de um pesadelo acordando de um pesadelo.
Somos todos humanos, somos todos falhos e nossos erros geralmente se repetem por toda a vida, atrelada na nossa roda de culpa e autopiedade, mas alguma coisa tem que mudar, “something must give”, pois eu quero ter pelo menos uma chance de sobreviver ao meu destino, pelo menos uma esperança de uma chance.
Meus relacionamentos continuam imitando uma peça de Nelson Rodrigues, continuo vivendo entre a esquizofrenia e a realidade, continuo sem saber porra nenhuma de mim, mas vou continuar e sem aquela mulher de gênio imprestável e lindos olhos verdes, que me deixou com os lábios sangrando em uma noite de chuva.
Pela última vez.
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Acho que foi a quarta vez ou talvez a quinta, mas foi a última, definitivamente. Pois nada pior que ouvir pela quarta ou quinta vez que você não é querido, um “deja vù” muito ruim, algo como um pesadelo em “looping” na sua cabeça.
É interessante como sentimos que o que é bom, quando termina é para sempre, mas o que é ruim tem uma infinita possibilidade de piorar e de se repetir, para sempre. Pois se parece ridículo ser largado pela quarta ou quinta vez, pela mesma mulher, imaginem ela te ligando pela sexta vez dizendo que te ama...Tua boca suturada, o maxilar doendo e a mulher pedindo perdão, é acordar dentro de um pesadelo acordando de um pesadelo.
Somos todos humanos, somos todos falhos e nossos erros geralmente se repetem por toda a vida, atrelada na nossa roda de culpa e autopiedade, mas alguma coisa tem que mudar, “something must give”, pois eu quero ter pelo menos uma chance de sobreviver ao meu destino, pelo menos uma esperança de uma chance.
Meus relacionamentos continuam imitando uma peça de Nelson Rodrigues, continuo vivendo entre a esquizofrenia e a realidade, continuo sem saber porra nenhuma de mim, mas vou continuar e sem aquela mulher de gênio imprestável e lindos olhos verdes, que me deixou com os lábios sangrando em uma noite de chuva.
Pela última vez.
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segunda-feira, abril 05, 2004
Um cheiro familiar.
Eu me lembro de Kurt Cobain.
Ouvir “Smells like teen spirit” pela primeira vez foi algo inesquecível, eu já conhecia a banda pelo seu primeiro disco, mas aquela música, com uma letra ininteligível, tinha alguma coisa de uma melancolia furiosa que não dava pra ignorar, direto no estômago e na segunda vez você já estava cantando junto. Aos berros e pulando.
Eu me lembro do Kurt Cobain como uma pessoa frágil, um garoto meio bobão, mas com muito talento e irresponsável o suficiente para ousar ser algo de novo e puro neste nosso mundinho do “pague agora e se foda para sempre”que a gente sustenta.
Eu me lembro do dia que anunciaram sua morte no Jornal Nacional e eu estava do lado do meu pai na sala de tv e não acreditei, acho que até chorei um pouco, mas eu não podia crer que o cara tinha se matado, e aquela vaca da mulher dele chorando na tv, para mim foi algo como um assassinato, uma execução.
Mas eu também senti um orgulho meio louco, pois o cara embora tenha deixado uma filha, simplesmente pediu licença, e disse “Hei, esse porra está toda errada! Não quero isso pra mim não... BANG!!!”, isso é muita coragem, muito desespero e muita tristeza. Algo que eu não suportaria por muito tempo.
E quando fiz vinte e sete anos, não pude deixar de pensar nele e de como eu me senti jovem e o cara já estava morto, eu todo enrolado com minha vida e o Kurt Cobain morto, e tudo que ele poderia realizar e ser, uma vida que ele poderia ter mudado e reconstruído não existiu, talvez ele nunca tenha sabido que havia outra maneira, tem que haver outra maneira.
Eu me lembro do Kurt Cobain e tenho saudades do bastardo.
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Ouvir “Smells like teen spirit” pela primeira vez foi algo inesquecível, eu já conhecia a banda pelo seu primeiro disco, mas aquela música, com uma letra ininteligível, tinha alguma coisa de uma melancolia furiosa que não dava pra ignorar, direto no estômago e na segunda vez você já estava cantando junto. Aos berros e pulando.
Eu me lembro do Kurt Cobain como uma pessoa frágil, um garoto meio bobão, mas com muito talento e irresponsável o suficiente para ousar ser algo de novo e puro neste nosso mundinho do “pague agora e se foda para sempre”que a gente sustenta.
Eu me lembro do dia que anunciaram sua morte no Jornal Nacional e eu estava do lado do meu pai na sala de tv e não acreditei, acho que até chorei um pouco, mas eu não podia crer que o cara tinha se matado, e aquela vaca da mulher dele chorando na tv, para mim foi algo como um assassinato, uma execução.
Mas eu também senti um orgulho meio louco, pois o cara embora tenha deixado uma filha, simplesmente pediu licença, e disse “Hei, esse porra está toda errada! Não quero isso pra mim não... BANG!!!”, isso é muita coragem, muito desespero e muita tristeza. Algo que eu não suportaria por muito tempo.
E quando fiz vinte e sete anos, não pude deixar de pensar nele e de como eu me senti jovem e o cara já estava morto, eu todo enrolado com minha vida e o Kurt Cobain morto, e tudo que ele poderia realizar e ser, uma vida que ele poderia ter mudado e reconstruído não existiu, talvez ele nunca tenha sabido que havia outra maneira, tem que haver outra maneira.
Eu me lembro do Kurt Cobain e tenho saudades do bastardo.
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